Os técnicos de climatologia, meteorologia, hidrologia de superfície e afins laboram num ambiente onde são frequentes as extrapolações, análises probabilísticas, tendências e previsões relativamente às quais as estatísticas e a qualidade das informações de terreno são cruciais para um trabalho sério e credível. Daí resultam conclusões que servem de base para decisões técnicas e posteriormente políticas que envolvem riscos calculados. Contudo, nestas áreas as decisões devem ser tomadas em tempo útil, sem rebuços nem hesitações, pois, ao cabo e ao resto bolem com o bem-estar e a própria vida de populações inteiras. A memória do povo é curta, excepto quando se trata de tragédias de grandes dimensões. Em Cabo Verde, os limites de absorção de consequências de catástrofes são muito reduzidos.
Este intróito visa tão somente dar o devido enquadramento à matéria sobre a qual versaremos hoje de forma breve, prometendo dar informações mais detalhadas numa próxima oportunidade. A nossa cidade vem dando sinais visíveis de fragilidade e cedência, para não dizer rotura, relativamente aos efeitos das precipitações ao longo dos últimos anos. A cidade conhece situações de autêntico sufoco e rompe-se em vários cantos quando chove. Hoje em dia, a magnitude e a frequência destes fenómenos devem ser consideradas inadmissíveis face à capacidade técnica de que os responsáveis deste país dizem orgulhar-se. Aliás, o que é considerado excepção em outras paragens, tornou-se corriqueiro e habitual e aparentemente aceitável na Praia Maria. Esta urbe vem servindo pontualmente de reservatório da água nauseabunda e lodosa, por vezes trespassando as casas dos cidadãos, percorrendo as dependências onde dormem os menos afortunados, criando berçários de mosquitos elementos patogénicos de toda a ordem provocando as conhecidas e indesejáveis enfermidades como a malária, as diarreias e afins. Esta água deveria deslizar de forma controlada até encontrar o seu caminho para o mar, salvo casos excepcionais como acontece um pouco por este mundo fora… O triste é que os munícipes parecem ter perdido a capacidade de se indignarem. Estas disfunções acontecem nas barbas dos decisores que se entretêm a descarregar as culpas sobre os engenheiros das estradas, presidentes das câmaras, lixo, governos e, mais grave ainda, os pagadores de impostos pelas razões das mais absurdas. Senão, vejamos alguns pontos para reflexão:
1. Os meus caros leitores já viram a imagem da cidade após as chuvas? Viram algo novo? A situação agravou-se? , lamaçais horríveis; crianças a chafurdarem em pântanos imundos como é o caso ou o caos da Várzea da Companhia, (ouviram as velhas explicações e justificações e não ficaram, como eu, chocados? A Várzea já se confortou com a nojeira anual da lama, o desconforto dos mosquitos e das vítimas da malária, e as autoridades já se acomodaram adoptando a postura do “dexa bai” ... Como é possível?
2. Todos os anos assiste-se a uma torrente de água e de solo que desenfreadamente desemboca na praia negra, (adveniente de uma das maiores bacias de Santiago - a bacia de Trindade) sobre a qual os cidadãos derramam os seus lamentos em coro de À nha guenti , anôs sem água e água ta bai pa mar tud anu. Alguém já ouviu falar no projecto da barragem de Trindade?
3. Uma curta visita aos bairros da Bela Vista, ou às ribeiras que ladeiam a Terra ranca, Safende, Vila Nova, Lem Ferreira, Paiol, Calabaceira, Casa Lata, enfim, toda a periferia da nossa capital após meia hora de chuva rija e qualquer leigo dirá: Deus ta libra,. si tchôbi destemperadamente ali ta houvi li.. morti
4. Cada vez mais gente vem do interior de Santiago e de outras ilhas e se instala nas circunvizinhanças da Cidade Capital, sem controlo, e não há ninguém que lhes diga; PAREM AGORA! …as vossas casas na linha de água irão engrossar as toneladas de escombros que um dia poderão cair em cima de todo mundo que já está instalado a jusante …
5. Chove mais hoje do que ontem? Não sei. Talvez! Posso garantir que a intensidade das últimas precipitações, como foram os ultimos eventos pluviométricos , revelaram-se deveras anormais e dá lugar ao que em linguagem técnica se chama FLASH FLOODS (cheias repentinas), com uma capacidade erosiva altamente preocupante. Até quando as casas de coitados irão segurar o desgaste dos alicerces que muitas vezes não existem … dá um frio na espinha???
6. De que meios dispõem os nossos valentes militantes dos serviços de Protecção Civil para salvar pessoas (falo de pessoas em perigo …) apanhadas por uma numa ribeira a correr com um caudal de trinta toneladas de água por segundo, com um cocktail de lixo, entulhos, pedaços de betão, pedras e lodo, etc ??… até parece este cenário resulta de uma imaginação ultra fértil; entretanto é mais do que evidente que os ingredientes estão todos presentes, falta um pouco mais de chuva e menos sorte. Deus nos livre! … em outras paragens esta possibilidade tornou-se numa realidade aterradora .
7. Será verdade que com a mesma quantidade de chuva a cada ano que passa teremos cada vez mais água disponível a correr nas nossas ruas a uma velocidade cada vez maior devido à impermeabilização das superfícies, das construções das estradas, etc. Isto agrava sobremaneira a situação.
8. Ficamos à espera para no futuro eventualmente provarmos errados os arautos do mau agoiro ou agimos na prevenção e na previsão hoje?
9. Será que há gente com formação preocupada e a estudar algumas soluções possíveis para o caso da Praia? Propostas chegaram a quem de direito? Quando? Será isso suficiente?
10. Será que está na forja um perigo potencial sem precedentes à volta da cidade da Praia e muita gente não dá conta?
Péricles Africano Lima Barros
( Engenheiro Hidrólogo )
Este intróito visa tão somente dar o devido enquadramento à matéria sobre a qual versaremos hoje de forma breve, prometendo dar informações mais detalhadas numa próxima oportunidade. A nossa cidade vem dando sinais visíveis de fragilidade e cedência, para não dizer rotura, relativamente aos efeitos das precipitações ao longo dos últimos anos. A cidade conhece situações de autêntico sufoco e rompe-se em vários cantos quando chove. Hoje em dia, a magnitude e a frequência destes fenómenos devem ser consideradas inadmissíveis face à capacidade técnica de que os responsáveis deste país dizem orgulhar-se. Aliás, o que é considerado excepção em outras paragens, tornou-se corriqueiro e habitual e aparentemente aceitável na Praia Maria. Esta urbe vem servindo pontualmente de reservatório da água nauseabunda e lodosa, por vezes trespassando as casas dos cidadãos, percorrendo as dependências onde dormem os menos afortunados, criando berçários de mosquitos elementos patogénicos de toda a ordem provocando as conhecidas e indesejáveis enfermidades como a malária, as diarreias e afins. Esta água deveria deslizar de forma controlada até encontrar o seu caminho para o mar, salvo casos excepcionais como acontece um pouco por este mundo fora… O triste é que os munícipes parecem ter perdido a capacidade de se indignarem. Estas disfunções acontecem nas barbas dos decisores que se entretêm a descarregar as culpas sobre os engenheiros das estradas, presidentes das câmaras, lixo, governos e, mais grave ainda, os pagadores de impostos pelas razões das mais absurdas. Senão, vejamos alguns pontos para reflexão:
1. Os meus caros leitores já viram a imagem da cidade após as chuvas? Viram algo novo? A situação agravou-se? , lamaçais horríveis; crianças a chafurdarem em pântanos imundos como é o caso ou o caos da Várzea da Companhia, (ouviram as velhas explicações e justificações e não ficaram, como eu, chocados? A Várzea já se confortou com a nojeira anual da lama, o desconforto dos mosquitos e das vítimas da malária, e as autoridades já se acomodaram adoptando a postura do “dexa bai” ... Como é possível?
2. Todos os anos assiste-se a uma torrente de água e de solo que desenfreadamente desemboca na praia negra, (adveniente de uma das maiores bacias de Santiago - a bacia de Trindade) sobre a qual os cidadãos derramam os seus lamentos em coro de À nha guenti , anôs sem água e água ta bai pa mar tud anu. Alguém já ouviu falar no projecto da barragem de Trindade?
3. Uma curta visita aos bairros da Bela Vista, ou às ribeiras que ladeiam a Terra ranca, Safende, Vila Nova, Lem Ferreira, Paiol, Calabaceira, Casa Lata, enfim, toda a periferia da nossa capital após meia hora de chuva rija e qualquer leigo dirá: Deus ta libra,. si tchôbi destemperadamente ali ta houvi li.. morti
4. Cada vez mais gente vem do interior de Santiago e de outras ilhas e se instala nas circunvizinhanças da Cidade Capital, sem controlo, e não há ninguém que lhes diga; PAREM AGORA! …as vossas casas na linha de água irão engrossar as toneladas de escombros que um dia poderão cair em cima de todo mundo que já está instalado a jusante …
5. Chove mais hoje do que ontem? Não sei. Talvez! Posso garantir que a intensidade das últimas precipitações, como foram os ultimos eventos pluviométricos , revelaram-se deveras anormais e dá lugar ao que em linguagem técnica se chama FLASH FLOODS (cheias repentinas), com uma capacidade erosiva altamente preocupante. Até quando as casas de coitados irão segurar o desgaste dos alicerces que muitas vezes não existem … dá um frio na espinha???
6. De que meios dispõem os nossos valentes militantes dos serviços de Protecção Civil para salvar pessoas (falo de pessoas em perigo …) apanhadas por uma numa ribeira a correr com um caudal de trinta toneladas de água por segundo, com um cocktail de lixo, entulhos, pedaços de betão, pedras e lodo, etc ??… até parece este cenário resulta de uma imaginação ultra fértil; entretanto é mais do que evidente que os ingredientes estão todos presentes, falta um pouco mais de chuva e menos sorte. Deus nos livre! … em outras paragens esta possibilidade tornou-se numa realidade aterradora .
7. Será verdade que com a mesma quantidade de chuva a cada ano que passa teremos cada vez mais água disponível a correr nas nossas ruas a uma velocidade cada vez maior devido à impermeabilização das superfícies, das construções das estradas, etc. Isto agrava sobremaneira a situação.
8. Ficamos à espera para no futuro eventualmente provarmos errados os arautos do mau agoiro ou agimos na prevenção e na previsão hoje?
9. Será que há gente com formação preocupada e a estudar algumas soluções possíveis para o caso da Praia? Propostas chegaram a quem de direito? Quando? Será isso suficiente?
10. Será que está na forja um perigo potencial sem precedentes à volta da cidade da Praia e muita gente não dá conta?
Péricles Africano Lima Barros
( Engenheiro Hidrólogo )
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