
Parte III/IV
O meu interlocutor foi peremptório: Cabo Verde precisa de uma ditadura! Devo confessar fui na bola e deixei-me embriagar pela lógica e os argumentos por ele aduzidos, que por sinal dão para pensar. Bolas, estou em democracia e posso dar-me ao luxo de pensar alto, em silêncio e, até jogar um pouco com o que, aparentemente pode, roçar o absurdo. Para já o absurdo só existe por que há uma forma alternativa de “reasoning out”, (como dizem os anglófonos), diga-se, de organizar o pensamento, interpretar a realidade e ou raciocinar; Referimo-nos obviamente ao socialmente bem aceite, aquela que sistema entendeu designar, como normal e inteligível, se se quiser urbano. Pois é, ia dizendo que estou em democracia e dou-me ao luxo de exercitar ao limite que julgar adequado, a minha liberdade de pensamento; se isso for considerado uma fugida da estrada comum não me incomodo muito. Reflectir sobre o contraditório, ou outras formas de organização e gestão da sociedade e expressa-lo livremente, só é possível na plenitude em democracia; em ditadura, este exercício também é possível, porém deverá ser feito preferencialmente em silêncio, para não se correr o risco de experimentar o efeito de 220 volts numa zona do corpo que normalmente nem exposto ao sol costuma estar. Voltado à conversa, estive em vários momentos de acordo com o meu parceiro; relembro de termos acordado que , com uma pitada de sorte ( em termos da pessoa certa para o lugar certo) haver vantagens para a sociedade dispor de um timoneiro que tenha os poderes todos na mão e que os exerça, quando julgar oportuno. O que ganhariam a sociedade cabo-verdiana em geral e os municípios em particular tendo como figura de proa, alguém com estatuto, com prestígio semelhante ao dos administradores do concelho do período colonial ? Muitos certamente ainda se recordam, daquele tempo. A grande maioria destas figuras era de elevada estatura moral e cívica, respeitada, rigorosa, com ampla margem de manobra do ponto de vista decisional, sempre presente, exercendo os três poderes: criavam regulamentos, actuavam directamente sobre os acontecimentos , faziam julgamentos sumários e obrigavam os prevaricadores a pagar de forma célere pelos danos causados à sociedade. Estas figuras eram portadores de uma mão firme na ordem pública através de um controlo directo da policia. A patrão do concelho exercia a sua acção na vidas de todos os cidadãos, desde as inspecções aos potes de água para beber, ao visual das casas (caiação obrigatória todos os anos), passando pela aplicação de multa imediatas pela rejeição de águas usadas nas ruas, autorização prévia para fazer bailes, interdição de entulhos nas vias publicas, enfim; havia uma presença física de policias nas ruas 24 horas por dia; Cães vadios? Muito poucos. Carros especiais para os capturar, com período preestabelecido para recuperação dos mesmos pelos donos mediante pagamento de uma coima pouco meiga; Construções clandestinas? Nem pensar! Atitudes ditatoriais? Autocracia? Já imaginaram que hoje a qualidade de vida dos cidadãos está altamente comprometida pela falta de soluções para os problemas acima descritos, aplicadas com vigor QB, e em tempo útil? Ora nem mais. Certamente haviam casos em que o administrador abusava dos seus poderes, porventura fazendo “jus” à sua condição de humano , sujeito a falhar ; não duvido que na maior parte dos casos actuavam com a intenção de beneficiar a colectividade, de bem-fazer em abono da sociedade; Verdadeiros servidores da causa publica, autênticos comandantes de um verdadeiro exército de funcionários públicos irredutíveis na defesa dos interesses do colectivo; os municípios eram melhor geridos? Dá para pensar. Acreditem que sobre isso, eu não tenho muitas dúvidas; por outro lado quem quiser confundir isso com saudades dos outros tempos não poderia estar mais equivocado, como adiante tentaremos provar. Seria fabuloso se pudéssemos conjugar, uma cultura de constitucionalidade democrática e pluralista com a presença de um verdadeiro patrão na gestão da coisa municipal, passível de cometer excessos de uma vez ou outra, e que nos pudesse brindar com o exercício de um poder municipal de “largo espectro”? Quem não ouviu falar do filho que relembrando o pai dizia: o meu pai, era um ditador de primeira, porém se tivesse de escolher, escolhê-lo-ia de novo; Se o aplicar o aparente paradoxo acima referido na nossa realidade, alguns vírus altamente resistentes na nossa sociedade teriam vida curta; Inclusivamente, poderíamos até eliminar o pior deles todos: o seguinte conceito, que por ser pernicioso, serve somente para anestesiar a mente dos cidadãos:
“ Caros concidadãos, devo dizer-vos que , estes, são males das sociedades modernas, Cabo Verde esta inserido no mundo global, temos que aceitar que não será possível eliminá-los, mas sim atenuá-los quando passarem dos limites, porquanto não vale a pena dramatizar a situação “
É esta passividade ou comodismo que vai minando esta sociedade, a ponto de alguns se ter a sensação que dá-se mais protecção aos delinquentes do que aos cidadãos comuns e vitimas de uma corja de bandidos perfeitamente instalados. Ora, meus amigos, imaginem que repescamos do nada, uma figura do estilo dos Srs. Administradores Minite, Lenco, Napoleão Azevedo, ou Rendall, ? No mínimo, os THUGS, os ladrões de energia, os camionistas displicentes, os hiacistas malcriados, os taxistas desenfreados, os “mijadores” de rua, ao ladrões de plantas da via publica, os donos de casas cinzentas, os lançadores de água nas ruas, os vizinhos barulhentos, os vendedores de rua, os fiscais camarários corruptos … teriam os dias contados! Raciocínio absurdo? Talvez não! Há uma coisa parecida, neste mundo moderno, a figura do MAYOR! Alguém conhece a história do 112º Mayor de NY City Rudoph W. Guiliani (1194 2001) ? …Este chegou a NY City e pôs a casa em ordem. Onde circulavam traficantes e ladrões, passou a ser local de lazer e descontracção diária de famílias nova-iorquinas. Isso aconteceu há menos de dez anos. Absurdo? Nem pouco mais ou menos ! Aprendamos com os bons exemplos, deixemos de lado o comodismo e premiemos a cidadania ao invés da delinquência .
Péricles Barros
(Cidadão )