quarta-feira, 30 de setembro de 2009

CABO VERDE PRECISA SIM, DE UMA NOVA GERAÇÃO DE POLÍTICOS


( A propósito do nosso meio ambiente moribundo
.. e da nossa incapacidade em aprender com os bons exemplos )

Parte II/IV


Por momentos, ao ouvir uma passagem da crónica do dia do Daniel Medina do dia 28 de Setembro do corrente senti um frio na espinha. Este meu amigo de longa data, cronista de fino recorte intelectual, e hábil comunicador, falava da mãe natureza e de como ela é ( des) tratada, por este mundo fora e em Cabo Verde particular. Dizia o cronista, que apesar do facto de Cabo Verde dispôr de quadros formados em diferentes países mundo onde as questões sobre o ambiente e a natureza têm tratamento privilegiado e correcto enquadramento institucional e legal, aqui na nossa “casa” as coisas vão ao sabor dos ventos; o temperatura da minha espinha aumentou um pouco quando ele fez referencia ,de forma clara, ao responsabilidade que impende sobre os decisores neste particular; na realidade Cabo Verde está onde não devia estar, não pela qualidade da massa cinzenta, capacidade técnica e operacional dos seus quadros, mas sim à qualidade dos instrumentos e ferramentas de que dispõem , e sobretudo da imperícia de quem os dirige; de que vale ter um bom carro e excelentes peças sobressalentes, se o meu condutor, ao invés de se concentrar na estrada prefere falar para telemóvel enquanto conduz, fitando todos os fios dentais que passam nos passeios ? Resultado: no próximo cruzamento este artista pago para conduzir, enfia-se nas traseiras, não dos portadores dos ditos instrumentos de limpeza de dentes, mas sim num montão de chapa de alumínio de milímetro e meio, com uma chapa de matricula. Resultado: pagamos a multa e os estragos, compramos outro carro e contratamos um novo artista. Tem sido esta a nossa sina .

Na realidade, a nossa relação entre os cabo-verdianos e o seu meio ambiente, assim como a decorrente convivência com a mãe natureza em toda a sua extensão resultam directa ou indirectamente do desempenho e da destreza de quem decide e governa. Tenho dificuldades em aceitar o veredicto de que se deve cobrar em pé de igualdade a todos os actores da sociedade indiscriminadamente pelos custos das doenças induzidas ao nosso frágil meio ambiente envolvente e o seu continuo agravamento; isso não passa de uma manobra falaciosa e encapuçada para desviar atenção dos cidadãos do essencial; assim desresponsabilizando quem em primeira linha deve ser chamado a capitulo. Quando o criminoso não tem nome nem rosto, então não há arguido, e ,… como se costuma dizer morte de pov nê´sintide; É muito fácil dizer que o cidadão cabo-verdiano não tem sensibilidade ambiental, e que todos somos responsáveis e quejandos; ora antes de mais concentremos naqueles que tem o dever de, em primeira-mão, estabelecer as condições institucionais, legais, politicas, administrativas, orçamentais, organizacionais, educacionais para que mudanças efectivas de comportamento se operem a nível dos cidadãos. Falamos de quem tem a responsabilidade de fazer as leis e exigir o seu cumprimento; Uma casa bem ordenada não gera necessariamente filhos bem-educados; porem uma casa mal alimentada , onde não se cumprem as normas, onde não há rigor nem disciplina, só pode gerar descendentes defeituosos; Nestas condições se os filhos se transformarem em marginais deve-se assacar as primeiras responsabilidades aos progenitores . Ora não podemos dizer que é este o retrato real de Cabo Verde, no que respeita as questões ambientais; porém seguramente não estaremos longe da verdade, se dissermos que faz-se tábua rasa a muitos dispositivos legais importantes e estruturantes em Cabo Verde, em abono de outros interesses; que não rigor , que falta fiscalização. Isto é grave, extremamente grave; quanto mais não seja quando vem de da parte de quem devia dar o exemplo ; Decisores de má qualidade só podem criar equipes de qualidade inferior e dar produtos de terceira categoria. Relativamente às questões ambientais, e à segurança de pessoas e bens, não devia haver equívocos em Cabo Verde; não podemos permitir este luxo; o que muita gente não gosta de ouvir , é que Cabo Verde não tem tido sorte com seus titulares de pastas ligadas ao ambiente e afins ; que os PANA (Planos de Acção Nacional para o Ambiente ) embora sendo documentos orientadores exemplares, não tem a tradução em termos de eficácia e pragmatismo que se deseja; é só dar um saidinha nos arredores da cidade da Praia para se constatar que a poluição aumenta aceleradamente; o mar tem cada vez menos peixe, e mais pneus, garrafas , bolsas de plástico , latas, tubos ferro velho etc ..( isso, nas costas de Santigo que eu julgo conhecer melhor que as outras ) . Temos politica ambiental ? Creio que sim, mas na realidade não sei para que serve ?? Francamente não sei. Para que serve o II Plano de Acção Nacional para o Ambiente (PANA II), Cabo Verde 2004 2014: orçado em 124.000,498 ECVS , se a nível dos municípios, não dispomos gente qualificada para implementar os PAM? ( Plano Ambiental Municipal) Para que serve um programa constantemente interrompido por falta de transferência atempada de recursos financeiros ? Resposta: conto para Inglês ver , fazer dormir uma manada de asnos e alguns crioulos menos atentos. Por estas e outras, Cabo Verde precisa, sobretudo de uma nova geração de gestores da coisa pública.


Péricles Barros
(Eng Hidrólogo)

(cidadão)

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